Três Razões teológicas contra o aborto
Publicado no Jornal Correio do Vouga em 99/99/99

Entre as muitas razões que poderia
apontar para recusar qualquer possibilidade de aceitar a prática do
aborto, apontarei três que me parecem fundamentais. Porque falo –
teologicamente – a partir do cristianismo e sobretudo para cristãos –
embora não exclusivamente – penso ser indicado ligar essas razões à
profissão de fé em Deus uni-trino.


1. Um cristão recusa a prática do aborto, porque crê em Deus Pai,
origem primeira e finalidade última de toda a vida humana. Porque Ele
dá a vida, gratuitamente, criando à sua imagem e semelhança, instaura
com isso a interdição ética – e religiosa – de dispormos dessa vida,
seja própria ou dos outros. O carácter incondicional dessa máxima
ética – precisamente por ter origem na própria fonte da vida,
transcendente ao mundo e aos humanos – impede que circunstâncias
históricas e pessoais, sejam quais forem, justifiquem, de algum modo,
a manipulação da mesma.


2. Um cristão denuncia toda a prática abortiva porque crê em Deus
Filho, feito humano em Jesus Cristo, origem de uma fraternidade
inter-humana, que exige respeito e responsabilidade mútuos. Nenhum ser
humano é, desse modo, senhor ou dono de outro, seja em que
circunstâncias for. A maternidade – ou paternidade – é reconduzida,
desse modo, ao nível fundamental da fraternidade, de tal modo que uma
nova vida que começa é, já, a vida de um irmão em humanidade, pela
qual todos somos igualmente responsáveis.

Para além disso, porque o cristão acredita que o Filho de Deus deu a
própria vida, em solidariedade amorosa com todos os que são vitimados
inocentemente, sente-se constantemente interpelado a dar a sua vida em
defesa de todas as vítimas inocentes, sobretudo daquelas que nenhuma
possibilidade têm de se defender. A participação na Páscoa de Jesus
Cristo exige do cristão essa permanente atenção a todos os vitimados
deste mundo, não podendo enveredar pela espiral da vitimação,
vitimando ou, pelo menos, aceitando a vitimação dos mais indefesos, em
nome da defesa de outras eventuais vítimas.


3. Um cristão propõe uma via alternativa, porque acredita em Deus
Espírito, sopro que anima a vida e a conduz para o seu verdadeiro
sentido. Assim, em vez de escolher atalhos fáceis, que iriam conduzir
a becos sem saída, propõe o caminho difícil do acolhimento do outro
diferente – seja quem for, rico ou pobre, perfeito ou imperfeito,
desejado ou indesejado – como o único caminho com sentido de vida
verdadeira. Por isso, o cristão recusa sacrificar alguns ao bem-estar
de outros, sabendo que o Espírito de Deus todos quer conduzir ao Reino
da verdadeira felicidade.

Não pode ficar-se, é certo, por essa recusa, mas ela constitui a base
e o impulso para uma vida consciente da responsabilidade de
transformar, constantemente, a vida dos outros, em vida que caminhe
para o seu verdadeiro sentido. À solidariedade para com as potenciais
vítimas de aborto, deve juntar a solidariedade para com todas as mães
em situações humanamente difíceis, para que lhes seja possível, mesmo
nessas condições, acolher os seus filhos em amor, acolhendo assim o
verdadeiro sentido das suas próprias vidas. Porque só o amor é fonte
de vida e Deus é amor: Pai, Filho e Espírito.


João Duque





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