Publicado no Jornal Correio do Vouga em 99/99/99
O
tema que me foi dado fez-me pensar na despenalização do aborto por um prisma
diferente do habitual. Deverei começar por esclarecer o leitor de que fui, sou
e serei contra a licitude do aborto a pedido. E sou-o por muitas razões que têm
a ver com alguns dos princípios sobre os quais creio que uma sociedade justa e
fraterna deve ser construída, como o do respeito da vida humana em todas as
suas formas e estados, o da harmonia com a Natureza ou o da responsabilidade
das pessoas pelas suas acções. Em momento algum, no entanto, tinha eu tentado
olhar para esta questão a partir da minha formação académica como economista.
Vejamos o que resultou…
Haverá
razões da economia para ser contra a despenalização do aborto a pedido até um
qualquer prazo adivinhado através de uma humana busca do instante, diferente do
da fecundação (?!), em que teria início a “verdadeira” vida? Assim de chofre,
talvez pareça que não. A ciência que estuda a escolha das utilizações
alternativas de recursos escassos com vista a satisfazer as necessidades das
pessoas, a ciência que estuda o lado “material” do desenvolvimento, a ciência
que se constituiu à volta de um modelo que, no essencial, supõe que é na
liberdade dos indivíduos (enquanto consumidores e enquanto produtores) que
assenta a eficiência do sistema produtivo, esta ciência não parece ter nada a
ver com questões como a origem de uma vida ou a licitude de um comportamento
que elimina um ser que nem consome nem produz. De um certo ponto de vista,
poderia até argumentar-se que havendo gente que deseja abortar (a “procura”…),
o sistema económico acaba por criar um ramo de actividade (a “oferta” que
satisfaz essa procura) que vai mobilizar recursos da sociedade, públicos ou
privados, e gerar um valor acrescentado que será distribuído sob a forma de
salários, lucros e rendas. O aborto a pedido pode ser visto, portanto, como uma
oportunidade de negócio, com efeitos positivos na dinamização da economia.
É
verdade que os economistas sabem hoje que um dos problemas que mais afligem as sociedades desenvolvidas é o da brutal quebra
da fecundidade que se verifica há algumas décadas: as pessoas, de facto,
deixaram pura e simplesmente de ter filhos, por razões que não cabe aqui abordar,
e o conjunto dessas muitas decisões individuais tem efeitos funestos sobre o
futuro dos sistemas de segurança social, sobre o futuro dinamismo e grau de
inovação do sistema económico, etc..
Neste contexto, poderíamos ser tentados a argumentar economicamente contra o
aborto a pedido pelos seus óbvios efeitos antinatalistas.
Tal implicaria, no entanto, assumir um princípio de organização da sociedade em
que a vontade da pessoa se deve subjugar aos interesses do colectivo: seria,
por assim dizer, algo semelhante, embora de sinal contrário, ao que se passa
com a política chinesa de um filho por família.
Quererá
isto tudo dizer que não é possível argumentar economicamente contra a
despenalização do aborto a pedido? Apesar de tudo, creio que se pode. É que, apesar de os
economistas pouco falarem disso, os negócios, a confiança nos mercados e o
desenvolvimento das economias implicam necessariamente um fundamento ético nas
sociedades – basta ver como não se desenvolvem as sociedades em que campeia a
corrupção… Não arrisco muito, portanto, se disser que tudo o que, nos dias de
hoje, contribua para reforçar a ética do respeito para com o outro, para
acentuar o “dever ser” em relação ao que parece ser, para condenar o
facilitismo e acentuar a responsabilidade de cada um tem efeitos fantásticos
sobre o potencial de desenvolvimento económico das sociedades. E o combate à
licitude do aborto a pedido é um importante factor deste combate.
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